Com a panela no fogo, a mulher corre no quintal, olha para cima da ribanceira e grita para a casa vizinha: “Ô Nilza, tô sem alho!” Da janela da cozinha, Nilza estica o braço e lança três ou quatro dentes de alho para salvar o almoço da amiga. Aos 55 anos, Nilza Rosa, nascida de parteira no alto do Morro da Formiga, zona norte do Rio, recorre a essa cena para dizer, categórica, que não quer trocar o “calor humano” da favela pela convivência fria entre vizinhos no “asfalto”, a cidade formal lá embaixo. “Sou formiguense, nasci e vou morrer aqui”, diz.
Nilza faz parte desse grupo porque sabe que o rotineiro socorro na casa do vizinho não ocorreria num prédio da zona sul do Rio, Ou da Tijuca, o bairro de classe média que fica aos pés do morro onde se criou.
“Sou de uma família de 11 filhos. Quatro das minhas irmãs moram aqui e meus quatro filhos também. Com a família perto, é tudo mais fácil. E aqui no morro todo mundo se ajuda. Se eu ganhasse um apartamento lá em baixo, venderia e continuaria na Formiga. Em prédio no asfalto ninguém se cumprimenta”, diz Nilza, entre um aceno e outro para os vizinhos. Ela conta que convenceu o marido, Dejair Santos, que conheceu na Tijuca, a viver no morro. “Ele não sai mais!” 
Os laços de solidariedade são mais fortes nas favelas e superam os problemas.
“As pessoas são muito ligadas às outras, apesar do tráfico e da polícia. Eles não gostam dessa situação, vivem sob duas tiranias, mas a relação com vizinhos e familiares é de solidariedade”… “As pessoas conversam na porta de casa. No asfalto, prevalece a indiferença. A classe média é mais voltada para seus próprios círculos.”
Os questionários da pesquisa foram distribuídos em favelas como o Complexo do Alemão e Mangueira, na zona norte, Rocinha, na zona sul, e Cidade de Deus, na zona oeste. Na comparação com uma pesquisa anterior feita pelo Nupevi entre todos os cariocas, os moradores de favela parecem gostar mais da cidade. Apenas 7% gostariam de deixar o Rio, enquanto entre os cariocas em geral esse porcentual é de 15%.
Para Nilza, a velha oposição favela-asfalto nem faz mais sentido, já que ruas foram pavimentadas na Formiga na década de 90 no programa Favela-Bairro. Diz que, não fosse pelo tráfico, seria possível viver no morro como em qualquer lugar. “As casas são melhores e em qualquer uma tem DVD, TV, geladeira. Em qualquer barraquinho tem celular. Mas a TV está estragando os jovens. Ninguém mais almoça junto, não tem mais aquele respeito pelas madrinhas, pelos mais velhos.”
Líder comunitário da Rocinha, Carlos Costa discorda do resultado da pesquisa. Para ele, quem respondeu que não quer sair da favela quis, na verdade, dizer que não tem alternativa. “A informalidade e a falta de estrutura incomodam os que começam a sair para estudar e ver outras coisas. Ainda existe um vínculo, mas numa escala menor. Hoje, mesmo na favela, é cada vez mais cada um por si”, afirma. “O que incomoda é não poder prever quando um tiroteio vai começar do seu lado. No asfalto também tem a violência, o assalto, o tiro na via expressa, mas a relação com isso muda.”

Estadão